terça-feira, 28 de agosto de 2007

O maior dos mandamentos

Semana passada eu trocava um dedo de prosa com o padre João Francisco acerca da relação Deus/criatura. Sábio, o nosso santo padre recordava da condição sine qua non explicitada por Jesus ao escriba que queria saber o primeiro de todos os mandamentos. ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças’, ensinou-lhe o Mestre. E emendou: ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior que este não existe’. Deus que me conhece muito bem, melhor que eu mesmo, sabe que não tenho conseguido, nem de longe, viver essa proposta. Amar os amigos e aqueles a quem a gente quer bem é mamão com mel. E os inimigos? Eu até quero (vez ou outra), mas meu coração ainda é muito duro. Quantas e quantas vezes eu já não desejei ou sugeri a morte de estupradores, seqüestradores e homicidas. Perdi a conta das vezes que ‘condenei’ ladrões e assaltantes à prisão perpétua ou chibatadas, três vezes ao dia, com vara de marmelo; quantos e quantos políticos eu já ‘sentenciei’ a apanhar com gato morto até o gato miar? Eu sei do maior dos mandamentos, mas não consigo vivê-lo, e, desgraçadamente, não amo meus inimigos. Pior, eu já sei a minha paga; está escrita na primeira carta de João: ‘aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele’.

sábado, 18 de agosto de 2007

Sucesso e fracasso

Quanto mais alto, maior é o tombo, ensinava vovó Alvarina. O sucesso, às vezes, também pode ser estrada larga e pavimentada para a perdição, derrocada e falência financeira e moral, se não for bem administrado, com equilíbrio, sobriedade e discernimento. ‘Sucesso e fracasso são temporários, o que permanece é a competência’, ensina o médico psiquiatra Roberto Shinyashiki. Tantos e tantos experimentaram os dois momentos (glória e lama) com tal intensidade que não sabem mais encontrar o caminho de casa, estão mortos apesar da vida aparente. A propósito, foi por demais gratificante ouvir o testemunho de César Menotti por ocasião do grande show na festa do peão de Taquaritinga. Com a autoridade de quem alcançou os limites da fama, e a humilde dos fortes, de quem tem coragem de admitir erros, o parceiro de Fabiano falou que Jesus ‘transformou sua vida’ depois de ‘tirá-lo da lama’ em que vivia, mesmo depois do sucesso profissional, da fama e da riqueza material. Não sei o tipo de ‘lama’ vivida pelo cantor, isso não importa. O que vale é que ele saiu de lá porque teve humilde de reconhecer suas misérias e abrir o coração para a verdadeira e duradoura felicidade: Jesus Cristo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Na contramão da história

Para milhões de pessoas a palavra de padre já não é mais importante. Parte considerável da atual geração de ‘católicos’, aqueles do censo do IBGE, pouca ou raramente vai à missa, não sabe o que se passa na vida da comunidade e só entra numa igreja nas cerimônias de casamento ou batizado. Quase sempre na contramão da história, sou do tempo das missas dominicais, da reza do terço e muitos quilômetros rodados na Palavra do Senhor. Eu quero e preciso das coisas de Deus, por causa das minhas muitas misérias e do coração ainda duro. Uma música inspirada, um texto do padre Zezinho, uma palestra do padre Léo, um sermão do padre João, e o Criador se faz presente, meu coração se alegra. Pão que alimenta, água que dessedenta, que refrigera, que purifica é a Palavra. Quero sempre mais e mais desse pão e dessa água, mesmo que o terreno seja ainda pouco fértil e mantenha alguns espinhos a impedir a boa florada. Como aquela corsa que anseia por água pura ou aquele rio que corre para o mar, eu procuro as coisas do alto, das verdades do Pai, mesmo em meio ao pântano do dia-a-dia. Pode até ser cafona ou fora de moda declarar-se apaixonado pelas coisas de Javé, ou Jeová, como chamam os nossos irmãos evangélicos, não importa, não vou mudar meu jeito de ser, não consigo viver longe da santa Palavra.

O Estatuto e a juventude

Na solidão deste espaço, ousei criticar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), por entendê-lo zeloso demais com os direitos do adolescente e igualmente descuidado com os deveres dessa mesma juventude. Reconheço a santa preocupação das autoridades do meu país ao criar leis que garantam ao menor o direito à educação, ao lazer e a uma vida com pouco mais de dignidade. Penso, no entanto, que exageraram no combustível do veículo e esqueceram de sinalizar melhor a estrada a ser seguida. A grande maioria não sabe lidar com essa ‘facilidade’ toda e dá com os burros n’água, ou, arrebenta a cara no ‘poste’ do desemprego, dos vícios, da prostituição. A progressão continuada, ao tempo que liberta o aluno limitado do trauma da repetência, engana esse mesmo aprendiz com a falsa impressão de que será assim no vestibular ou na disputa por aquela vaga de emprego. Impedidos pelo Estatuto de aprenderem um ofício dos 12 aos 16 anos, nossos jovens só sabem falar de balada, MSN, orkut, bebida e azaração. ‘É de menino que se endireita o pepino’, já dizia minha vó. Meu avô Benedito Candido sabia a hora de dar corda ao cavalo e o tempo certo de segurá-lo na rédea curta. Ao lado de Alvarina, criou filhos felizes, trabalhadores e honrados. Não tinha muito combustível a oferecer, mas sabia apontar o caminho e caminhava com os filhos.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Menor aprendiz

Nos idos de 1970, muitos meninos de minha geração trabalhávamos pela manhã, ou à tarde, no serviço de arrumar caixas de madeira utilizadas no transporte de goiaba ou tomate das fábricas Peixe e Paoletti. Os pregadores de caixa, com idades em torno de 10 anos, garantiam bem cedo uns trocados para comprar uns doces nos armazéns da dona Concheta, do Abílio Panosso ou do Ramalho, e ainda ajudavam no orçamento familiar. Foi assim com tantos engraxates e sorveteiros, além de inúmeros aprendizes em oficinas, lojas, padarias, farmácias e marcenarias. Nada que pudesse comprometer o aprendizado escolar ou colocar em risco a integridade física das crianças e o santo direito ao lazer. Aí, alguém confundiu menor aprendiz com trabalho infantil e bagunçou o meu país. Hoje, os nossos dirigentes acreditam que os jovens que passam horas e horas com o bundão atolado no sofá terão gosto pelo trabalho depois de dezoito anos perdidos em frente à TV, jogando vídeo game ou se especializando em sessão da tarde. Lógico que existem os exageros, as crianças exploradas em carvoarias, nas casas de farinha, nas lavouras e no corte de cana. Esse tipo de exploração é que deve ser combatido e eliminado. O que não pode é um estatuto, que diz ser de defesa da criança, confundir focinho de porco com tomada e esculhambar o santo trabalho de menores aprendizes.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Tragédias e vida

Difícil não pensar na família e nos amigos após tragédias como a do novo acidente com avião da TAM, na terça-feira (17), em que dezenas de vidas foram ceifadas num piscar de olhos. Impossível não acordar para este momento secular que Deus nos concede em uma de suas infindáveis obras-primas, nesse pequeno planeta de nome Terra – melhor seria chamá-lo de ‘Água’, por causa do maior volume desta em comparação com aquela. A simplicidade de uma pequena flor, muito mais linda e graciosa que a mais famosa musa das passarelas, por vezes não nos chama à atenção. O espetáculo o astro-rei passa despercebido pela maioria dos filhos do Criador, todo santo dia. Deus não pára de trabalhar um só dia e a cada milionésimo de segundo nos presenteia com pássaros e aves multicores, animais de beleza ímpar, flores, plantas e gente, pessoas de muitas cores, de diferentes sonhos e comportamentos distintos. Tudo obra e graça do maravilhoso Deus. Perdoe-me, Senhor, por dedicar tantos cuidados com vaidades e cultos efêmeros. Dai-me a Graça de ser fiel, de ser mais pai, mais filho, mais esposo, mais amigo. Que até o farfalhar das folhas mortas me faça lembrar que somos todos frutos da Tua mão. Transforma-me, dá-me um novo coração.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Fotossíntese

O programa Planeta Terra, da TV Cultura, mostrou interessante reportagem na terça-feira (10), sobre o grande número de animais ainda desconhecidos no fundo do mar em profundidades superiores a 200 metros. Em meio àquela incrível biodiversidade, o que mais me chamou atenção foi a beleza dos peixes e animais marinhos alcançados pelos raios do sol. Até onde alcança a fotossíntese, no limite de cerca de 150 metros de profundidade, salta aos olhos a multiplicidade das espécies multicores em variadas formas de encanto e beleza. A partir daí, quanto mais fundo se mergulha, menor é a intensidade dos organismos marinhos e duvidosa é a beleza das algas, peixes e corais; nem de perto lembram o colorido e a graça dos habitantes de profundidades atingidas pelos raios do astro-rei. Assim é a nossa vida. Ao redor da Luz, próximos das coisas do alto, criação e criaturas são muito mais belos, mais saudáveis, mais felizes. Longe daí, na escuridão, também se vive. A diferença é que os prazeres são efêmeros e a alegria não tem o mesmo sabor. Eu estive lá e pude ver homens e mulheres nessa busca estúpida e suicida. Longe da Luz, na escuridão, não tem Graça. Escuridão? Tô fora!