quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Quatro filhos pródigos

Um belíssimo casal, com quase 30 anos de casados, cinco filhos próprios e três adotivos falava com certa tristeza, dos filhos que deixaram a fé católica. Ajudaram a criar creches, fizeram todas as caridades imagináveis, pagam dízimo para a paróquia e para duas outras comunidades de vida, exímios pais e cidadãos, gente de fé profunda, de repente quatro filhos optaram por deixar o catolicismo. Dois não mais freqüentam, um foi para uma igreja pentecostal e outro anda de namoro com um grupo esotérico.

Olhei-os bem nos olhos e perguntei se tinham criado águias ou serpentes.

-Achamos ter criado águias. Fizemos de tudo para ensiná-los a voar livres e saber o seu espaço.- Continuei:
-Então joguem fora essa culpa e essa tristeza. Filhotes de águia, mesmo quando não voam nem usam as asas, não viram cobra. No devido tempo, quem foi para lá, vai voltar e quem saiu do espaço, a ele tornará. -Ela sorriu serena:
-Deus o ouça, padre, Deus o ouça!
-A parábola da Ovelha Extraviada e a do Filho Pródigo, em Lucas 15,1-32 foram contadas para gente como vocês! Nem Deus tem culpa quando vamos embora, nem vocês, que fizeram tudo o que seu amor de pais lhes inspirou. Filho é alma livre. Alguns deles, águias mais inquietas, acabam se cansando do ninho ou dos seus arredores e decidem voar noutro espaço do céu. Vão lá experimentar outros vôos e a companhia de outras águias. Mas existe um fenômeno chamado lembranças e outro chamado saudade. Um dia,eles quererão saber mais sobre os cinqüenta anos de vôo dos seus pais. Tenho sessenta e quatro anos e já vi muita gente ir embora e voltar. Se vocês fossem maus pais, eu também ficaria preocupado. Mas vocês são bons. Então eu sei que nenhuma outra igreja, nenhum outro pregador , nenhum outro grupo vai dar a eles o que amor que vocês deu por mais de vinte anos. O que vai pesar é isso! Quem fala bonito mais cedo ou mais tarde perde para quem ama bonito! Quem os levou para lá ou para fora, falou bonito, mas vocês vivem bonito! Quando seus filhos que se foram descobrirem o que é viver, voltarão! Não sei se serão católicos convictos como vocês, mas respeitarão a Igreja que uniu e suavizou o casal de quem eles vieram.

E disse ela enxugando uma lágrima:
-Não merecemos, mas Deus os ouça, padre! Respeitamos a escolha deles, só que tem que queremos o melhor para eles e seus filhos. E o melhor para nós, por mais difícil e contraditório que seja é ser católico. Pese o que pesar, carregamos esses vinte séculos nas costas. Não se joga fora uma herança desse tamanho! É por isso que ela pesa tanto!

A palavra dele foi curta e madura
-Somos gratos a Deus por nos ter feito católicos. Espero que um dia eles entendam isso!-
Os filhos? Por enquanto estão voando noutro espaço do céu! Por enquanto!

texto de Padre Zezinho – 4/9/07

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Provérbio chinês

Lembre-se de cavar o poço bem antes de sentir sede, ensina um provérbio chinês. Essa preocupação, no entanto, parece ter passado despercebida pelas autoridades responsáveis por administrar o dinheiro público. Mesmo com o preocupante aumento da taxa de mortalidade infantil e o recorde nos casos de dengue, preferiu-se investir muito dinheiro em carnaval e toneladas de fogos de artifício. Quem é que não gosta de comemorar com a família ou com os amigos? Porém, alguém já disse que quem não tem dinheiro para pagar o bolo não deve fazer festa. Ora, esse cuidado deve ter ficado para outra hora, a julgar pela Merenda Escolar genérica servida aos alunos das escolas municipais. Ou será que pão com patê de abóbora, com salsicha ou outro embutido, de segunda à sexta, tem os exigidos valores nutricionais, em especial, para crianças que dependem dessa refeição como a principal ou única refeição do dia-a-dia? Justifica gastar tanto dinheiro em fogos de artifício se os ônibus do transporte de alunos mais parecem uma lata de sardinha, com crianças sem assentos e sem segurança, conforme denúncias de mães preocupadas? Um outro provérbio chinês ensina que visão sem ação é sonho. Ação sem visão é pesadelo!

Nina

Alguém disse que agosto é mês de desgosto, de cachorro louco. Não foi o que aconteceu. O agosto de 2007 nos deu de presente uma adorável companheira, uma coisa fofa e chameguenta que alegra meus dias e de Priscila e nos perturba as noites, quando cisma de dormir com a gente. Pelos negros e olhar da cor da negritude celeste, ela nos ama. Éramos dois, hoje somos três. Quando nos aceitou por ‘donos’, tinha o tamanho pouco maior que a palma de minha mão. Não cresceu muito ainda, mas já toma parte considerável do nosso tempo. Alegria da casa, ela também se permite irradiar felicidade na casa dos pais de Priscila. O Borracha faz questão de visitá-la pela manhã e à tarde, a Joseane e as crianças não ficam um dia sem os afagos e chamegos da Nina. Quem ama os cães sabe que eles gostam de carinhos sem limites. Não se contentam com o afago, querem ouvir coisas, saber que são queridas, cobram um pedaço do nosso pão. A nossa Nina não é uma legítima Dachshund ou Teckel, teve um tiquinho do Zé. A original também é chamada popularmente de lingüicinha ou salsicha no Brasil, por causa do seu corpo longo. O Teckel foi criado para farejar, perseguir, caçar e matar texugos, marmotas e outros animais que habitam buracos. Nossa Nina sabe que pode mais. Sempre que a gente coloca a chave na fechadura, por menor ruído que faça, ela se coloca atrás da porta e nos espera. E sempre é muito bom chegar.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

O maior dos mandamentos

Semana passada eu trocava um dedo de prosa com o padre João Francisco acerca da relação Deus/criatura. Sábio, o nosso santo padre recordava da condição sine qua non explicitada por Jesus ao escriba que queria saber o primeiro de todos os mandamentos. ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças’, ensinou-lhe o Mestre. E emendou: ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior que este não existe’. Deus que me conhece muito bem, melhor que eu mesmo, sabe que não tenho conseguido, nem de longe, viver essa proposta. Amar os amigos e aqueles a quem a gente quer bem é mamão com mel. E os inimigos? Eu até quero (vez ou outra), mas meu coração ainda é muito duro. Quantas e quantas vezes eu já não desejei ou sugeri a morte de estupradores, seqüestradores e homicidas. Perdi a conta das vezes que ‘condenei’ ladrões e assaltantes à prisão perpétua ou chibatadas, três vezes ao dia, com vara de marmelo; quantos e quantos políticos eu já ‘sentenciei’ a apanhar com gato morto até o gato miar? Eu sei do maior dos mandamentos, mas não consigo vivê-lo, e, desgraçadamente, não amo meus inimigos. Pior, eu já sei a minha paga; está escrita na primeira carta de João: ‘aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele’.

sábado, 18 de agosto de 2007

Sucesso e fracasso

Quanto mais alto, maior é o tombo, ensinava vovó Alvarina. O sucesso, às vezes, também pode ser estrada larga e pavimentada para a perdição, derrocada e falência financeira e moral, se não for bem administrado, com equilíbrio, sobriedade e discernimento. ‘Sucesso e fracasso são temporários, o que permanece é a competência’, ensina o médico psiquiatra Roberto Shinyashiki. Tantos e tantos experimentaram os dois momentos (glória e lama) com tal intensidade que não sabem mais encontrar o caminho de casa, estão mortos apesar da vida aparente. A propósito, foi por demais gratificante ouvir o testemunho de César Menotti por ocasião do grande show na festa do peão de Taquaritinga. Com a autoridade de quem alcançou os limites da fama, e a humilde dos fortes, de quem tem coragem de admitir erros, o parceiro de Fabiano falou que Jesus ‘transformou sua vida’ depois de ‘tirá-lo da lama’ em que vivia, mesmo depois do sucesso profissional, da fama e da riqueza material. Não sei o tipo de ‘lama’ vivida pelo cantor, isso não importa. O que vale é que ele saiu de lá porque teve humilde de reconhecer suas misérias e abrir o coração para a verdadeira e duradoura felicidade: Jesus Cristo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Na contramão da história

Para milhões de pessoas a palavra de padre já não é mais importante. Parte considerável da atual geração de ‘católicos’, aqueles do censo do IBGE, pouca ou raramente vai à missa, não sabe o que se passa na vida da comunidade e só entra numa igreja nas cerimônias de casamento ou batizado. Quase sempre na contramão da história, sou do tempo das missas dominicais, da reza do terço e muitos quilômetros rodados na Palavra do Senhor. Eu quero e preciso das coisas de Deus, por causa das minhas muitas misérias e do coração ainda duro. Uma música inspirada, um texto do padre Zezinho, uma palestra do padre Léo, um sermão do padre João, e o Criador se faz presente, meu coração se alegra. Pão que alimenta, água que dessedenta, que refrigera, que purifica é a Palavra. Quero sempre mais e mais desse pão e dessa água, mesmo que o terreno seja ainda pouco fértil e mantenha alguns espinhos a impedir a boa florada. Como aquela corsa que anseia por água pura ou aquele rio que corre para o mar, eu procuro as coisas do alto, das verdades do Pai, mesmo em meio ao pântano do dia-a-dia. Pode até ser cafona ou fora de moda declarar-se apaixonado pelas coisas de Javé, ou Jeová, como chamam os nossos irmãos evangélicos, não importa, não vou mudar meu jeito de ser, não consigo viver longe da santa Palavra.

O Estatuto e a juventude

Na solidão deste espaço, ousei criticar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), por entendê-lo zeloso demais com os direitos do adolescente e igualmente descuidado com os deveres dessa mesma juventude. Reconheço a santa preocupação das autoridades do meu país ao criar leis que garantam ao menor o direito à educação, ao lazer e a uma vida com pouco mais de dignidade. Penso, no entanto, que exageraram no combustível do veículo e esqueceram de sinalizar melhor a estrada a ser seguida. A grande maioria não sabe lidar com essa ‘facilidade’ toda e dá com os burros n’água, ou, arrebenta a cara no ‘poste’ do desemprego, dos vícios, da prostituição. A progressão continuada, ao tempo que liberta o aluno limitado do trauma da repetência, engana esse mesmo aprendiz com a falsa impressão de que será assim no vestibular ou na disputa por aquela vaga de emprego. Impedidos pelo Estatuto de aprenderem um ofício dos 12 aos 16 anos, nossos jovens só sabem falar de balada, MSN, orkut, bebida e azaração. ‘É de menino que se endireita o pepino’, já dizia minha vó. Meu avô Benedito Candido sabia a hora de dar corda ao cavalo e o tempo certo de segurá-lo na rédea curta. Ao lado de Alvarina, criou filhos felizes, trabalhadores e honrados. Não tinha muito combustível a oferecer, mas sabia apontar o caminho e caminhava com os filhos.